Notícia - A inesperada complexidade do remoinho gigante no pólo Sul de Vénus



O grande remoinho que existe no pólo Sul de Vénus não tem comparação com nenhum fenómeno meteorológico na Terra. Com cinco vezes o tamanho de Portugal, e uma existência sem fim à vista, é comparável a estruturas semelhantes em Júpiter ou Saturno. Analisado agora a altitudes diferentes, verificou-se que o remoinho tem dois núcleos, revela um estudo na revista Nature Geoscience.

Cada planeta é único, e Vénus tem o seu número de características inigualáveis no nosso sistema solar. O segundo calhau a contar do Sol é rochoso e de tamanho semelhante ao da Terra, com cerca de 80% da sua massa. Mas, no presente, as parecenças acabam aqui. Vénus é a estufa do sistema solar, com temperaturas à superfície que atingem os 450 graus Celsius, superiores ao calor máximo que se pode sentir em Mercúrio, que está mais perto da nossa estrela.

Além disso, o planeta tem uma rotação no sentido inverso ao da Terra – e um dia é maior do que um ano em Vénus: o planeta demora 243 dias terrestres a dar uma volta sobre si mesmo, enquanto completa uma volta ao Sol em 224 dias. Tem ainda uma camada de nuvens de dezenas de quilómetros de espessura, que gira em torno do planeta e causa um grande efeito de estufa. A atmosfera do planeta gera uma pressão à superfície equivalente à que existe nos oceanos da Terra a um quilómetro de profundidade.

“Há muito tempo que sabemos que a atmosfera de Vénus gira 60 vezes mais rápido do que a rotação do planeta. A diferença é enorme; é por isso que se chama super-rotação. E não temos ideia de como começou ou como é que se mantém”, diz Itziar Garate-Lopez, responsável pela equipa que fez o estudo e investigador da Universidade do País Basco, em Bilbau, Espanha.

É nesta atmosfera que surgem enormes vórtices, um deles situa-se no pólo Sul. “Os cientistas começaram a suspeitar da existência de um vórtice no pólo Sul de Vénus no fim da década de 1970, mal a sonda Mariner 10 tirou fotografias ao planeta”, explicou ao PÚBLICO o espanhol Javier Peralta, que trabalha no Observatório Astronómico de Lisboa e também assinou este trabalho.

Mas só mais tarde, com a Venus Express – a sonda da Agência Espacial Europeia que chegou ao planeta em Abril de 2006 –, é que se confirmou a existência deste vórtice. Há remoinhos semelhantes em Júpiter e Saturno, mas, ao contrário de Vénus, os dois planetas gigantes têm rotações muito rápidas que geram movimentos intensos na atmosfera.

A equipa utilizou a sonda Venus Express para analisar o vórtice. Um dos aparelhos da sonda é o VIRTIS-M, uma câmara de infravermelhos que permite analisar ao mesmo tempo camadas de nuvens a altitudes diferentes. O vórtice tem um período de rotação de dois dias e meio e um comprimento máximo de 2700 quilómetros e um mínimo de 900 quilómetros. “Tudo indica que os vórtices são estruturas permanentes na atmosfera”, diz Javier Peralta, mas ninguém sabe como ou quando surgiram.

Com os novos dados, a equipa conseguiu perceber que o vórtice é composto por movimentos de nuvens a 42 e a 63 quilómetros de altitude, que giram a velocidades de 58 quilómetros por hora. “Sabíamos que era um vórtice de longa duração, sabíamos que se alterava todos os dias. Julgávamos que os centros do vórtice a diferentes altitudes formavam só um tubo. Mas cada centro tem o seu movimento e, apesar disso, a estrutura global do vórtice atmosférico não se desintegra”, explica Itziar Garate-Lopez.

Com estes novos dados, Javier Peralta coloca duas questões: “O vórtice parece ter movimentos desacoplados a diferentes alturas. Será que é por serem vórtices diferentes? Será que o vórtice tem uma estrutura vertical helicoidal? Temos de medi-lo em alturas intermédias e comparar com simulações de computador feitas com estes dados novos.”

Na Terra, os efeitos sazonais e as diferenças de temperatura entre os continentes e as massas oceânicas permitem a formação de vórtices polares, mas também os deixam extinguir rapidamente. Em Vénus, não há nem oceanos nem estações, e a atmosfera comporta-se de uma forma muito diferente. O próximo passo, diz Javier Peralta, será tentar elaborar um modelo matemático do vórtice que explique a sua inesperada complexidade.


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